O Ensino Superior em Transição
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O Ensino Superior em Transição |
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Os normativos são instrumentos de gestão instigadores (de forma mais ou menos consciente, mais ou menos elaborada, mais ou menos conseguida) de políticas e das estratégias para as implementar. Instrumentos poderosos, sem dúvida, que conferem actuações, propósitos e objectivos, seja por definirem limites a não ultrapassar pelo risco das sanções impostas por “policial” atento, ou, pelo contrário, por assumirem um cunho orientador, gerador de motivações e de intencionalidades organizadas. Estes instrumentos permitem-nos, também, fazer - e essa é manifestamente uma intenção do autor - através do sentido “ergonómico” da ferramenta, uma reflexão sobre o seu idealizador/utilizador, as suas motivações e receios, as suas intenções e perspectivas, as suas potencialidades e limitações, numa visão dos traços “psicológicos” subjacentes, que vai certamente mais longe que os meros efeitos imediatos e as “simples” implicações burocráticas. Implicações estas que, no entanto, não deixam de ser influenciadas pelos normativos, impostos ou propostos, e que são, frequentemente, a única globalidade que alguns retiram das “regras”, fugindo ao “cansaço da reflexão”, como o autor também nos alerta. Com este sentido, o Ensino Superior tem, desde 2006, sido lançado num contínuo processo de transição. Em primeiro lugar, a transição de Bolonha, cuja pedra angular foi o Decreto-Lei n.º 74/2006, de 24 de Março, e que envolveu dezenas de milhares de docentes em centenas de instituições na discussão e concretização de reestruturações curriculares e reformulação de métodos pedagógicos. Em segundo lugar, a publicação de um Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior, aprovado pela Lei n.º 62/2007, de 10 de Setembro, que obrigou de novo milhares de docentes, entre os mais ligados à vida das suas instituições, a redigir novos Estatutos das suas Universidades / Institutos Politécnicos, agora denominadas “Instituições do Ensino Superior” e das respectivas “Unidades Orgânicas” denominação que passou a fazer face do nosso léxico corrente. Em terceiro lugar, a revisão dos Estatutos da Carreira Docente Universitária (ECDU) e do Pessoal Docente do Ensino Superior Politécnico (ECPDESP) operada respectivamente pelos Decretos-Lei n.º 205/2009 e 207/2009, de 31 de Agosto, e que deu lugar à elaboração em cada instituição de n regulamentos que visam complementar os Estatutos vigentes, e de novo, onde a população docente não está já completamente exausta, a tentativas de captação da sua atenção. Certamente que estes processos de transição se inserem numa perspectiva, defendida como de devolução de poderes às instituições do ensino superior, com vista à sua maior responsabilização. No entanto, ao Estado o que é/deve ser do Estado, às instituições o que é/deve ser das instituições. Devolução de poderes não deve ser confundida com demissionismo, e a tutela do ensino superior em muitos destes casos se abstém de legislar quando deveria, noutros transferiu preocupações e responsabilidades sem transferir meios. É sobre o segundo dos processos de transição, mais concretamente sobre a auto-reflexão das Universidades e dos Institutos Politécnicos a que a necessidade de elaboração de Estatutos deu lugar, que o Professor José Manuel Matos Pereira elaborou o trabalho agora divulgado. Doutor em Direito, este investigador tem procurado recolher e tratar documentação tanto sobre os aspectos jurídicos da alteração de modelo institucional a que a publicação da Lei n.º 62/2007 veio obrigar, como sobre as novas realidades sociológico-organizacionais que o processo veio gerar, afinal sobre o “Quem é quem no ensino superior”. Ao analisar este processo, com um sentido crítico apurado e com propostas alternativas em que se confrontam ideias e opções, o Professor Matos Pereira cria-nos um pretexto para procurarmos para além do imediato. Um imediatismo que é solicitado através de períodos extremamente curtos em que as respostas são exigidas, numa intenção evidente de manter a superficialidade. Uma intenção que é, julgamos, confirmada pela sonegação de dados e de definições essenciais para reflexões mais profundas, mas que são remetidas para um futuro incerto, para quando as alternativas estiverem fechadas, o inevitável estiver determinado, as possibilidades sejam limitadas e, consequentemente, a reflexão seja inútil, fechando um círculo, extremamente, vicioso em que se junta esta inutilidade à falta de vontade resultante do cansaço acima citado. É contra esta tendência que o autor se bate, levantando “pontas de véu”, apresentando dúvidas e perguntas que gostaria (gostaríamos) de ver esclarecidas, abrindo portas de reflexão que são ricas quer no âmbito das estruturas que analisa, quer nos quadros mais vastos em que estas se integram, em processos dialécticos onde as influências mútuas produzem dinâmicas que vão em mais longe que o somatório dos aspectos particulares. A reflexão do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) sobre a evolução do Sistema de Ensino Superior e sobre os caminhos futuros do Sindicato, a culminar no III Congresso do SNESup, cruzou-se, inevitavelmente, com a reflexão do Professor Matos Pereira sobre “O Ensino Superior em Transição”. Logicamente surgiu daí uma parceria de que um dos resultados é o patrocínio do Sindicato à presente publicação. |
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